sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mensagem Semanal

Quem não sabe, pergunte
XXV Domingo do Tempo Comum Leituras: Sb 2, 12.17-20; Sl 53 (54), 3-4.5.6.8 (R. 6b); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Julgar que os discípulos, por privarem com Jesus, eram privilegiados em matéria de fé é um erro comum. Às vezes pensamos: “Se eu tivesse visto como os apóstolos... Se tivesse convivido com Jesus… Se tivesse assistido a um dos seus milagres… acreditaria com outra convicção”. Na realidade, o mais certo era ter antes outras hesitações e outras dúvidas. De resto, a grande novidade cristã é que o Senhor continua a mostrar-se ao longo da história, na comunidade, na Palavra, na Eucaristia, no nosso próximo. Do ponto de vista do seguimento de Jesus, qualquer que seja o nosso estado, o convite é muito mais explícito nos dias actuais do que nos dias dos apóstolos, os quais, como no Evangelho de hoje, por vezes parecem desorientados. “Tinham o espírito embotado”, diz outra passagem do Evangelho. Os discípulos não compreendiam que Jesus tivesse que morrer e depois ressuscitasse. Esta incompreensão correspondia ao espírito da época. Mais tarde, São Paulo diria que a morte de Jesus constitui “escândalo para os judeus”, que queriam a glória, e “loucura para os gregos”, que tinham a sabedoria como ideal de vida. Para judeus dos quatro costados, como eram os apóstolos, o poder de Deus não deveria permitir que o seu servo Jesus morresse. “Se o Filho de Deus é quem realmente parece ser e diz que é, como poderá Deus abandonar o seu eleito?” – poderiam comentar entre eles. Mas em vez de se esclarecerem com o Mestre, “tinham medo de O interrogar”. Neste medo, ainda hoje presente entre nós, reside o drama (mesmo que assumido com indiferença) de muitos cristãos que abandonam a fé. Não esclarecem dúvidas, deixam crescer as hesitações ou julgam que não há respostas, por vezes como resultado de uma igreja autoritária que reprimiu as legítimas interrogações do espírito humano. Não interrogam Jesus, Deus, o padre ou a igreja, pensando que interrogar é já negar. Num jornal do fim-de-semana passado, alguém convertido a outra religião dizia: “A religião que pertence ao cristianismo, e na qual eu estava, era muito castradora, era a religião do «não podes», e quando eu perguntava porquê era uma questão de fé, não havia explicações”. O cristianismo não é isto. Nunca foi. Desde as origens que é um longo diálogo entre Jesus e os discípulos, entre o pastor e as ovelhas. Uma conversa virada para a vida e que nunca ilude as questões. Nas suas conversas – catequeses –, Jesus era sempre muito exemplificativo. As parábolas são exemplos tirados da vida e geradores de novas atitudes. Concluindo o Evangelho deste domingo, não conta uma parábola, mas apresenta uma criança para dizer que acolhê-la é acolher o próprio Jesus e o Pai que o enviou. Como a cultura mudou muito, podemos não entender o alcance desta afirmação de Jesus, se não soubermos que a infância de hoje nada tem a ver com a infância no seu tempo. Hoje escutamos as crianças e ficamos admirados com a sabedoria delas. Sabemos que as crianças têm uma psicologia própria e são totalmente pessoas. No tempo de Jesus, e na Antiguidade em geral, ser criança era “ainda não ser pessoa”, não contava, não se devia dar-lhes troco. Um profeta credível não prestava atenção às crianças. Era perder tempo e parecer insensato. “Re”traduzindo as palavras de Jesus, temos: “Quem receber uma destas não-pessoas em meu nome é a Mim que recebe…” A pergunta que temos que fazer é: Onde é que estão hoje as não-pessoas, quem são os não-maiores no nosso reino?
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